Crônicas

Sobre o amor infinito que sempre existiu entre nós.

Ela nasceu no dia vinte e quatro de março de dois mil. Um pouco depois do carnaval.

E eu me lembro bem quando o médico veio ouvir o coração pela última vez, de dentro da minha barriga. Suas batidas foram comparadas à bateria da Mangueira a todo vapor no carnaval.

Com os meus recentes dezessete anos, foi a primeira vez que eu me senti mãe. Ali, na ante-sala de parto, eu tinha certeza absoluta que estava a poucos minutos da estréia de uma pequena extensão de mim.

Trinta e seis semanas, quase nenhuma barriga, dor, medo, culpa, nenhum juízo e uma única certeza: a escolha era minha.

Raiou a luz na sala de parto. Envergonhada pela minha nudez, num choro contido – quase sem lágrimas – estreou Anna Julia.

Estranha a sensação que senti a primeira vez que peguei ela no colo. Era minha!

Perfeição divina, mesmo sem que eu merecesse. Fiquei um tempo considerável na porta do berçário. Eu e ela. Sentimento único de quem tá com o seu próprio coração batendo fora do peito.

Já se passaram dezoito longos anos. E eu que nunca soube exatamente como é esse negócio de ser mãe, fui colocando as regras, me exaurindo com infinitas conversas e seguindo adiante com as coisas que o meu coração acreditava…

Mas queria muito que ela crescesse logo e dependesse menos de mim e das minhas decisões…

Péssima ideia!

Agora ela cresceu. Quase tem vida própria.

E eu fico aqui sentindo uma saudade do tempo que era eu quem decidia a roupa pra vestir depois do banho…

Mas ver florescer as pequenas sementes plantadas é um afago no coração nostálgico. Dá um orgulho vê-la rumo ao seu percurso, fazendo as suas próprias – e boas – escolhas.

Seguindo na angústia entre vê-la crescer e escorrer entre os dedos, respiro aliviada com uma das minhas poucas conclusões sobre tudo isso: O amor é natural, mas só a admiração faz os filhos abrirem todas as portas e nos manter sempre por perto.

Tô chegando ao meu décimo nono dia das mães e de repente ainda me bate uma saudade absurda daquele primeiro barulho, que parecia mesmo a bateria da Mangueira estremecendo para entrar na avenida e se fazer campeã. Ali eu tinha certeza: ainda teríamos, pelo menos, mais 18 anos à frente.

Sigo aprendendo.

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